
Porto acolhe Congresso Europeu da Tiroide, inscrições com forte adesão
23 Julho, 2026Um artigo de Cristina Mesquita de Oliveira, Fundadora e Presidente da Direção da VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa
“Tenho problemas de tiroide. Como sei se o que sinto é disso ou da menopausa?”. Esta é uma pergunta que muitas mulheres fazem. E é uma boa pergunta.
Cansaço, alterações do sono, dificuldade de concentração, ansiedade, mudanças de humor, palpitações, queda de cabelo, aumento de peso ou alterações no ciclo menstrual podem aparecer durante o processo de menopausa.
Algumas destas manifestações também podem surgir quando há alterações no funcionamento da tiroide.
Para a mulher que está a viver tudo isto, a distinção não é fácil. Sobretudo quando recebe respostas diferentes conforme a porta onde bate.
“É da tiroide, ou é da idade, é do stress ou é a menopausa”. Na VIDAs ouvimos estas frases todos os dias. O problema não está apenas na possibilidade de uma explicação estar errada. Está no facto de demasiadas vezes, ninguém parar para juntar as diferentes partes da história.
A menopausa não é uma doença. É uma etapa natural da vida da mulher. Mas pode provocar alterações com impacto real no sono, no bem-estar, na saúde sexual, na capacidade de concentração, na vida familiar e no trabalho. E ainda, por ser natural não significa que tenha de ser empurrada para debaixo do tapete, ou tratada como uma inevitabilidade sem resposta.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece a transição para a menopausa como uma fase natural da vida que continua a ser desvalorizada enquanto questão de saúde. A doença da tiroide é outra realidade. Pode existir antes, durante ou depois da menopausa. Pode estar diagnosticada e controlada. Pode ainda não ter sido identificada. E pode coexistir com o processo de menopausa. É precisamente por isso que a resposta não pode ser automática.
Uma mulher com hipotiroidismo não deixa de entrar em perimenopausa. Mesmo com as análises da tiroide dentro dos valores esperados, pode começar a ter calores súbitos, suores noturnos, alterações menstruais, secura vulvovaginal, dores nas relações sexuais ou perturbações do sono relacionadas com a menopausa.
Da mesma forma, uma mulher em perimenopausa pode ter uma alteração da tiroide que precisa de ser investigada. Estar na idade de perimenopausa não significa que tudo o que acontece ao corpo seja provocado por alterações hormonais.
A European Menopause and Andropause Society chama a atenção para esta sobreposição. A menopausa e as doenças da tiroide podem coexistir e apresentar manifestações semelhantes, o que pode dificultar ou atrasar a identificação de uma das situações.1
Outra pergunta frequente que ouvimos é: “Tenho de fazer análises para saber se estou na menopausa?”. Na maioria das mulheres com mais de 45 anos, a perimenopausa é identificada principalmente através das alterações menstruais, da idade e do conjunto de manifestações que a mulher apresenta. Não existe uma análise única que diga: “Está em perimenopausa”.
A avaliação da função tiroideia pode ser necessária quando há razões para suspeitar de outra causa. Mas uma análise à TSH avalia o funcionamento da tiroide. Não confirma nem exclui a menopausa. As orientações clínicas do NICE recomendam que as análises à tiroide sejam consideradas quando existem manifestações que podem ter uma causa diferente da menopausa, evitando exames desnecessários quando o quadro é clinicamente claro. As mulheres também perguntam “Se tenho uma doença da tiroide, posso fazer terapêutica hormonal da menopausa?”.
A existência de doença tiroideia não impede automaticamente a utilização de terapêutica hormonal da menopausa. A decisão depende da situação clínica, dos antecedentes, das manifestações, dos benefícios esperados e dos fatores de risco de cada mulher. Significa que os tratamentos devem ser acompanhados e articulados pelos profissionais de saúde.
Na VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa, levamos para a discussão as perguntas que as mulheres fazem e tentamos explicar-lhes que têm direito a respostas completas, reconhecendo quando uma explicação não chega. Quando a resposta é sempre “é da tiroide”, a menopausa pode ficar invisível.
Quando a resposta é sempre “é da menopausa”, outras condições de saúde podem não ser devidamente avaliadas. Por isso, talvez a pergunta não deva ser apenas “é da menopausa ou é da tiroide?”. Digamos que realmente o que se quer é saber responder a isto: “O que está realmente a acontecer comigo e o que é necessário avaliar?”. É esta pergunta que as mulheres levam para as consultas. E é esta pergunta que merece uma resposta.
1 Mintziori G. et al. EMAS position statement: Thyroid disease and menopause. Maturitas. 2024;185:107991




