
Inquérito Nacional de Saúde
18 Setembro, 2026Na semana em que se assinala o Dia de Sensibilização para o Cancro da Tiroide (24 de setembro), a ADTI e a Porto Tiroide Center, lançam uma Campanha de sensibilização para profissionais de saúde e doentes.
Autor: Prof. Jaime Vilaça, MD, PhD, FEBS-MIS; Porto Tiroide Center
A glândula tiroide, sua importância
Este órgão endócrino em forma de borboleta produz hormonas que regulam o nosso metabolismo. Assim, é fundamental para o crescimento físico e intelectual, para a menstruação e fertilidade, para o humor e para a atividade de órgãos vitais como o coração, o fígado e os rins.
O nosso equilíbrio interno (homeostasia) é determinado por mecanismos de controlo contínuo onde as hormonas têm um papel preponderante. As hormonas tiroideias ajudam a ditar o ritmo biológico que avisa o corpo quando deve ficar ativo ou descansar. A isto chamamos ritmo circadiano. Como bem sabemos, a vigília é diferente do sono, a manhã é diferente da tarde ou da noite.
As indicações vulgares de cirurgia
O aparecimento de nódulos na tiroide é quase uma inevitabilidade, afetando mais de 70% das pessoas aos 70 anos de idade. Estes são quase sempre benignos, correspondendo os malignos a cerca de 10% do total. Quando a função está preservada, ou seja, quando as hormonas estão normais, a cirurgia tem que ser feita para o tratamento de nódulos malignos, nódulos suspeitos, ou quando há sintomas locais como dificuldade a engolir, pressão, rouquidão ou bócio (tiroide visível).
Estas são as indicações mais frequentes para tiroidectomia.
As recomendações atuais
Pela sua grande importância, a tiroide é uma glândula endócrina a preservar. As linhas orientadoras para cirurgia da tiroide, nomeadamente as da Associação Americana da Tiroide (ATA), eventualmente a mais importante Sociedade Científica nesta área, são claras a este respeito. Cada lado da tiroide deve ser tratado com os mesmos critérios. Ou seja, deve presidir à decisão esta vontade de poupar o mais possível.
É também claro que se a tiroide for igualmente grande dos dois lados, estender-se para o tórax dos dois lados ou tiver um tumor maligno agressivo, está indicada a retirada total da glândula. Porém, estes casos são a exceção. Na maioria dos casos os tumores malignos da tiroide são designados de “bem diferenciados” e por isso podem ser tratados com preservação do outro lado da glândula.
Os benefícios de poupar a tiroide
Podemos evocar três grandes benefícios em retirar um só lado da tiroide: primeiro é uma cirurgia com menos risco, segundo preserva função hormonal da tiroide, e terceiro, é adequada do ponto de vista oncológico para a maioria dos casos e não prejudica a necessidade de uma futura intervenção na mesma área.
Os riscos da cirurgia da tiroide dizem respeito à integridade das estruturas nobres que se relacionam com a glândula. Assim, de cada lado temos dois nervos para a corda vocal (um determinante da mobilidade e outro da tensão), e de cada lado há habitualmente duas glândulas paratiroideias responsáveis pelo equilíbrio do cálcio. Ao fazermos a cirurgia de um só lado, não colocamos em risco as duas cordas vocais. No caso de uma afetação bilateral das cordas o doente pode não conseguir respirar e precisar de fazer um orifício na traqueia. Uma autêntica calamidade que não acontece na cirurgia de um só lado.
No que ao funcionamento das glândulas paratiroideias diz respeito, a sua disfunção (que chamamos hipoparatiroidismo) leva a um estado de permanente baixa de cálcio no sangue. Essa situação crónica obriga a tratamento para o resto da vida com graves implicações na qualidade de vida, e riscos para órgãos indispensáveis como os rins, o coração ou o cérebro. Na cirurgia unilateral da tiroide não há hipoparatiroidismo porque as paratiroides do outro lado estão preservadas.
A segunda ordem de razão é a preservação da produção hormonal da própria pessoa. Em doentes com tiroide restante sem inflamação, a probabilidade de esta ser suficiente para produzir as hormonas necessárias é de cerca de 80%. Ou seja, 80% dos doentes que só retiram um lado da glândula não precisam fazer medicação de substituição. Mesmo que haja necessidade de tomar um comprimido para suprir as necessidades, facilmente compreendemos que é melhor ter alguma produção própria do que nenhuma. Só o nosso corpo consegue dosear as hormonas de acordo com as necessidades. Isso nenhum comprimido consegue fazer com a mesma precisão.
Por fim, é hoje consensual que há lugar a cirurgia unilateral na maioria dos carcinomas diferenciados da tiroide. O prognóstico destes tumores (menores de 4 cm e sem gânglios invadidos) é excelente, com taxas de sobrevivência aos 10 anos de 98-99%. Assim, é adequado e com vantagem para o doente fazer uma cirurgia unilateral nestes casos. Nas raras ocasiões em que há progressão de doença pode-se depois radicalizar o tratamento sem prejuízo de sobrevivência. Esta abordagem por patamares poupa muitas tiroides e muitos doentes das consequências do excesso de tratamento.




