
‘Os segredos da sua tiróide’, um livro de Inês Sapinho
24 Março, 2026Jaime Vilaça, cirurgião e membro do Conselho Consultivo/Científico da ADTI – Associação dos Doenças da Tiroide, fala-nos, nesta entrevista, da cirurgia mini invasiva da tiroide, que utiliza câmaras vídeo de alta-definição e permite “ver muito bem as estruturas durante a operação. A recuperação é habitualmente suave”, afirma.
ADTI: Fale-me da forma como funciona a cirurgia mini invasiva da tiroide?
Jaime Vilaça: As operações convencionais da tiroide são feitas por uma incisão em colar no pescoço. As cirurgias endoscópicas da tiroide não provocam esta agressão beneficiando os doentes de pequenas cicatrizes ocultas. Podem ser feitas pela axila e pela boca conforme os casos. O facto de se fazer com uso de câmaras vídeo de alta-definição permite ver muito bem as estruturas durante a operação. A recuperação é habitualmente suave.
ADTI: Que doentes podem fazer este tipo de cirurgia?
Jaime Vilaça: Os cirurgiões com elevada experiência nestas operações conseguem tratar a maioria dos casos com estas técnicas. Mesmo casos de tumores malignos podem beneficiar com estas abordagens. Em termos de abrangência da operação, é possível fazer libectomia, istmectomia ou tiroidectomia total.
ADTI: Em Portugal, é uma cirurgia efetuada em todo o sistema de saúde, público e privado? É já um procedimento habitual?
Jaime Vilaça: Nos últimos anos verifica-se um interesse crescente dos grupos de cirurgia endócrina em todo o mundo, e Portugal não é exceção. O primeiro Serviço de Cirurgia do SNS a desenvolver um programa de cirurgia endoscópica da tiroide foi o do Hospital de Leiria com direção de Miguel Coelho dos Santos. Depois disso já outros centros iniciaram estas técnicas. Acredito que em pouco tempo haverá mais centros a começar esta prática.
ADTI: Os doentes conhecem este procedimento ou ainda há muita desinformação?
Jaime Vilaça: A maioria das pessoas ainda não conhece estas abordagens o que é realmente uma pena porque traz muitas vantagens. Também os profissionais de saúde fora dos centros mais especializados não estão familiarizados. Esta é uma missão importante da nossa associação, dar a conhecer novos tratamentos para benefício dos doentes da tiroide.
ADTI: Qual é o risco da mesma e/ou a taxa de sucesso?
Jaime Vilaça: Quando bem selecionados, os casos feitos por estas técnicas têm muito baixo risco e vantagens de recuperação e estéticas. No nosso grupo, com mais de 400 doentes tratados com técnicas endoscópicas temos apenas um caso do princípio que não conseguimos terminar a operação por esta via e tivemos que ir para a via clássica. A satisfação dos doentes, que avaliamos em inquérito anónimo foi de 96%. O risco de lesão vocal definitiva ficou em 0,7% o que é um valor menor do que a maioria das séries “abertas”.

ADTI: A nível do pós-operatório, como decorre normalmente?
Jaime Vilaça: Temos três tipos de operações diferentes consoante a parte da tiroide que necessita ser retirada. Se for menos que total, o doente tem alta no dia seguinte à cirurgia e em muitos casos até pode ser feita em ambulatório. Se for uma tiroidectomia total fica internado dois dias. Hoje podemos “salvar” parte da tiroide na maioria das situações. Isto traz muitas vantagens para os doentes que fazem cirurgias com menor risco e menos sequela para a vida. Após a cirurgia o doente vai para casa a fazer paracetamol em ‘SOS’. Muitos nem sequer sentem necessidade de tomar qualquer medicamento.
ADTI: A nível tecnológico, que caraterísticas tem esta cirurgia minimamente invasiva à tiroide?
Jaime Vilaça: Usamos aparelhagem de videocirurgia que existe em todos os hospitais. Beneficiamos com uma imagem ampliada e bem iluminada o que permite ver muito bem todas as estruturas. Para elevar o nível de segurança usamos monitorização dos nervos que enervam as cordas vocais levando a uma identificação perfeita destes nervos. Preserva-se assim a voz de uma maneira mais previsível. Para as glândulas Paratiroides não ficarem afetadas podemos também usar fluorescência para as identificar e poupar. Isto resulta em operações menos invasivas, com melhor recuperação e altamente seguras.
Neste vídeo fique a conhecer melhor o método de cirurgia endoscópica (minimamente invasiva) da tiroide, que surge no início deste milénio, de acesso remoto e que não deixa cicatriz no pescoço.
Neste vídeo, conheça um caso de uma jovem que foi operada por doença de Graves (doença com hipertiroidismo e que habitualmente é muito difícil de operar).




