
A Tiroide: pequena glândula, grande impacto na nossa saúde
27 Maio, 2026Na Semana Internacional da Tiroide 2026, que se celebra de 25 a 31 de maio, a ADTI – Associação das Doenças da Tiroide lançou um apelo, em forma de Carta Aberta, à Ministra da Saúde e aos deputados da Comissão Parlamentar de Saúde, para que o hipotiroidismo seja reconhecido como doença crónica em Portugal.
É essa Carta Aberta, que a ADTI fez chegar a ambas as instituições, que publicamos abaixo.
Há uma realidade silenciosa que continua insuficientemente reconhecida nas políticas de saúde em Portugal: o hipotiroidismo é, para muitas pessoas, uma doença crónica, que exige tratamento, vigilância clínica e acompanhamento ao longo da vida.
É por isso que a Associação das Doenças da Tiroide (ADTI) considera importante promover uma reflexão mais ampla sobre o reconhecimento do hipotiroidismo, de forma clara, proporcional e efetiva, no enquadramento das políticas públicas de saúde em Portugal.
Apesar da sua elevada prevalência, do impacto significativo na qualidade de vida e da necessidade frequente de terapêutica contínua, o hipotiroidismo continua, muitas vezes, associado à perceção de um “problema hormonal” ou de uma condição menor, sem reconhecimento proporcional ao peso clínico, social e económico que efetivamente representa.
Esta desvalorização tem consequências concretas para quem vive, durante anos, com sintomas persistentes antes de obter um diagnóstico. Tem consequências para quem enfrenta fadiga, alterações cognitivas, alterações metabólicas, dificuldades emocionais e perda de produtividade sem compreender verdadeiramente a origem do que sente. E tem igualmente impacto na forma como estas patologias continuam a ser percecionadas e acompanhadas.
Em Portugal, estima-se que as doenças da tiroide possam afetar entre 5% e 10% da população.
No caso específico do hipotiroidismo, a prevalência é frequentemente estimada em cerca de 5%, com uma proporção relevante de casos ainda por diagnosticar. Isto significa que centenas de milhares de pessoas poderão estar a viver com hipotiroidismo diagnosticado ou por diagnosticar, muitas vezes com sintomas persistentes e sem acompanhamento adequado.
Mas o verdadeiro desafio não termina no atraso do diagnóstico. O hipotiroidismo é, em muitos casos, uma doença crónica. Exige terapêutica hormonal diária, monitorização clínica regular, vigilância laboratorial e sucessivos ajustes terapêuticos ao longo da vida. Exige também gestão contínua do impacto da doença no bem-estar físico, psicológico, social e profissional. Para muitas pessoas, a doença traduz-se em perda de qualidade de vida, quebra de rendimento laboral, absentismo, limitação funcional e desgaste emocional continuado.
Ainda assim, continua a existir reduzida consciência pública sobre o impacto cumulativo destas patologias. Num país onde mais de quatro em cada dez pessoas com 16 ou mais anos referem viver com uma doença crónica ou problema de saúde prolongado, e onde existe uma crescente reflexão sobre prevenção, gestão da doença crónica e sustentabilidade do sistema de saúde, parece-nos importante promover uma discussão mais ampla sobre o peso real das doenças da tiroide e sobre a necessidade de respostas proporcionais à sua expressão populacional.
Reconhecer o hipotiroidismo como doença crónica não é apenas uma questão simbólica ou conceptual. É um passo importante para garantir maior coerência nas políticas de saúde, melhor enquadramento assistencial, maior literacia, valorização adequada dos sintomas persistentes e acompanhamento clínico mais estruturado.
Noutros sistemas de saúde europeus, o hipotiroidismo tratado já tem enquadramentos específicos associados à sua natureza prolongada e à necessidade de terapêutica contínua. Em Inglaterra, por exemplo, as pessoas com hipotiroidismo que necessitam de tratamento podem requerer um certificado de isenção que lhes permite aceder gratuitamente às prescrições médicas no NHS. Não se trata de um modelo diretamente transponível para Portugal, mas demonstra que a natureza crónica e continuada da doença já é reconhecida, noutros contextos, para efeitos de proteção concreta dos doentes.
Neste contexto, a Associação das Doenças da Tiroide considera fundamental que o Governo e a Assembleia da República promovam uma reflexão concreta sobre o reconhecimento do hipotiroidismo como doença crónica, com impacto nas políticas públicas de saúde e na organização da resposta assistencial. Esse reconhecimento deve permitir:
· assumir o hipotiroidismo como uma doença crónica;
· promover estratégias mais eficazes de diagnóstico precoce;
· melhorar o acompanhamento continuado dos doentes;
· reforçar a valorização clínica dos sintomas persistentes;
· aumentar a literacia em saúde sobre doenças da tiroide;
· integrar estas patologias de forma mais consistente nas políticas de gestão da doença crónica em Portugal;
· e garantir que a resposta pública acompanha melhor o impacto real da doença na vida das pessoas.
A Semana Internacional da Tiroide, que se assinala de 25 a 30 de maio, deve servir para muito mais do que assinalar uma data. Deve colocar no centro da reflexão pública uma realidade que continua silenciosa, subvalorizada e insuficientemente reconhecida. Reconhecer o hipotiroidismo como doença crónica é um passo importante para melhorar a qualidade de vida de quem vive com esta realidade.
A Direção da ADTI




